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BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Homem, de 26 a 35 anos, Persian, English, Sexo, Dinheiro
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Caixa Preta
A arte de jogar conversa fora


Sobre Café e Cigarros (Coffee and Cigarettes/2003) Direção: Jim Jarmusch Com: Roberto Begnini (Roberto), Cate Blanchett (Cate/Shelly), Alfred Molina (Alfred), Steve Coogan (Steve), Bill Murray (Bill Murray), Iggy Pop (Iggy), Tom Waits (Tom), Steve Buscemi (garçom), etc
Está em cartaz em poucas salas de São Paulo e Brasília, o mais recente trabalho do cultuado cineasta americano Jim Jarmusch. "Sobre Café e Cigarros" é uma colagem de 11 curtas -- ou vinhetas, como queiram -- produzidos num intervalo de quase 17 anos e que versam sobre assuntos diversos, sempre na companhia de nicotina e cafeína.
A idéia de Jarmusch é original no sentido de afirmar um ponto de vista e desencanada na forma de executá-la. Boa parte dos atores ali representam a si mesmos, em doses generosas de improviso e auto-paródia. Não há uma linha obrigatória que ligue os 11 segmentos ou que conclua qualquer situação. Assim, temos, entre outros, Roberto Begnini como um tal "Roberto" que fala inglês macarrônico, Bill Murray como ele mesmo, trabalhando secretamente de garçom, e a dupla Jack e Meg White, do White Stripes, numa conversa surreal que traz simpática homenagem aos filmes B dos anos 50 (bobina de Tesla emitindo raios num belo preto-e-branco, como, de resto, todo o filme é).
Por trás do descompromisso, existe uma espécie de elogio ao ócio e uma celebração discreta da nostalgia. Essa nostalgia parece existir no direito de gastar tempo numa mesa de coffee shop, filosofando sobre nada e exercendo o direito da "intoxicação". Em tempos de almoço à base de fast food e pressão por produtividade, qualquer bate papo acompanhado de café e cigarros parece mesmo coisa do passado. A atmosfera nostálgica ganha reforço com o aspecto politicamente incorreto do filme: na contramão do culto ao estilo de vida saudável, Jarmusch preparou diálogos que exaltam as benesses do café expresso ou o sagrado direito a um cigarrinho. Steven Wright, que contracena com Begnini na primeira vinheta, chega a dizer que deveriam fabricar picolés de café para as crianças cultuarem desde cedo esse hábito tão nobre. As situações se repetem com variações em muitos dos 11 segmentos e o contraponto é mostrado com o mesmo sarcasmo. Há garçons inconvenientes (Steve Buscemi falando do gêmeo de Elvis ou um panaca que insiste em oferecer sanduíche durante o café solitário de uma dona) e, na mais hilária situação "politicamente correta", dois velhotes com pinta de mafiosos (Joseph Rigano e Vinny Vella) que discutem sobre os males do café sem largar suas xícaras. Jarmusch, dessa maneira, ironiza com leveza os detratores do binômio café/cigarro.
E a história de misturar realidade e ficção, explorada com tanta originalidade no alucinado "Quero Ser John Malkovich", de Spike Jonze, rende pelo menos 3 momentos antológicos em "Sobre Café e Cigarros". No primeiro -- o segmento "Somewhere in California" --, Iggy Pop aguarda Tom Waits num coffee shop. O Iguana ilumina a tela com um carisma absurdo, movido a olhares curiosos e intervenções divertidíssimas. Waits improvisa suas falas e diz que, além da música, exerce também a Medicina (!). Os dois, que se declaram ex-fumantes, encontram um maço de Marlboro e fumam sem a culpa dos tabagistas, num tipo de piada que lembra a participação do próprio Jim Jarmusch em "Sem Fôlego", filme de Wayne Wang lançado há 10 anos.
A segunda seqüência soberba nessa brincadeira de botar um ator interpretando a si mesmo, é protagonizada por Cate Blanchett na vinheta "Cousins". Ela vive a Cate-celebridade e também uma prima fictícia e recalcada chamada Shelly. É um desses momentos brilhantes na arte de fingir ser outra pessoa e também ser você mesmo. De quebra, essa seqüência sozinha consegue retratar melhor temas como fama, anonimato, grana e a falta dela, do que filmes inteiros dedicados ao assunto. Por fim, temos a vinheta "Cousins?", protagonizada por Alfred Molina e Steve Coogan (diretor de "A Festa Nunca Termina"). Evento hilariante pela expressividade de Molina, o choque cultural EUA/Inglaterra (Coogan irônico e blasé desdenha de tudo que é americano) e a auto-paródia que os dois se permitem (Molina é carente e meio "loser", Coogan é interesseiro).
"Sobre Café e Cigarros" termina com Jarmusch tirando mais um coelho da cartola: a última das 11 pequenas histórias é de profunda beleza e melancolia. Uma tentativa romântica de evocar o direito ao ócio e aos pequenos vícios. Desfecho que funciona como crítica agridoce a esse mundo tão apressado e que permite a dois senhores apenas 20 minutos para sonhar.
 Iggy Pop e Tom Waits entre café e cigarros
Escrito por Mr Eddy às 19h38
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